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A Quarta Revolução da Educação

Livros que mudam negócios · Educação e IA

A IA vai libertar-nos ou infantilizar-nos?

Resenha de The Fourth Education Revolution, de Anthony Seldon. Um livro de 2018 sobre inteligência artificial na educação, escrito antes do ChatGPT e lido agora, com a IA já em todos os telemóveis. Tem uma linha do tempo, uma turma simulada e um jogo para pores à prova o que aprendeste.

The Fourth Education RevolutionAnthony Seldon com Oladimeji Abidoye · University of Buckingham Press, 2018 · em inglês
As quatro revoluções da educação, numa linha que sobe Ilustração animada com quatro marcos ligados por uma linha: família e tribo, escolas e escrita, imprensa e escola de massas, e inteligência artificial. quanta gente aprende, e com que ajuda 1.ª família 2.ª escola 3.ª imprensa 4.ª IA
Quatro saltos na forma como aprendemos, segundo Seldon

Introdução

Um livro de 2018 lido em 2026

Há livros sobre tecnologia que envelhecem mal em dois anos. Este tinha tudo para ser um deles. Anthony Seldon, historiador britânico, antigo diretor do Wellington College e, na altura, reitor da Universidade de Buckingham, escreveu-o com o investigador Oladimeji Abidoye quatro anos antes de o ChatGPT chegar ao público, em novembro de 2022.

Mesmo assim, a pergunta do subtítulo ficou mais atual, não menos: a inteligência artificial vai libertar ou infantilizar a humanidade? Em 2018 era um exercício de imaginação. Hoje qualquer aluno do secundário tem no bolso uma máquina que lhe resolve o trabalho de casa, e qualquer dono de um pequeno negócio tem uma que lhe escreve os e-mails. A pergunta deixou de ser teórica.

Li-o a pensar em duas coisas: o que diz sobre escolas, que é o tema do livro, e o que diz sobre aprender no trabalho, que é o que me interessa a mim e, provavelmente, a ti. Explico as ideias por palavras minhas e digo onde concordo e onde acho que o livro falha.

Nota rápida: isto não é um resumo oficial. Os números das simulações são ilustrativos, servem para perceber a ideia e não são dados do livro.

A tese

As quatro revoluções da educação

A espinha do livro é uma ideia simples: ao longo da história, a forma como aprendemos mudou de raiz apenas três vezes. Cada mudança alargou o número de pessoas que aprendem, mas também deixou alguma coisa para trás. Seldon diz que estamos a entrar na quarta.

Linha do tempo

Toca em cada revolução

Repara no padrão. Cada revolução resolveu o problema da anterior, que era a escala, e criou um novo. A terceira pôs toda a gente na escola, mas pôs toda a gente na mesma escola, ao mesmo ritmo. É contra isso que o livro escreve.

O diagnóstico

O problema da escola-fábrica

A escola que conhecemos nasceu com a revolução industrial e tem o feitio de uma fábrica: turmas por idade, toque de campainha, o mesmo programa para todos e um exame no fim da linha. Funcionou para alfabetizar países inteiros. Seldon reconhece-o. Mas aponta o que este modelo nunca conseguiu resolver: não se adapta a cada aluno, não corrige as desigualdades à partida, mede só aquilo que é fácil de medir e enterra os professores em papelada e correções.

O ideal oposto é antigo. Aristóteles foi tutor pessoal de Alexandre, o Grande. Durante séculos, ter um tutor só para ti era coisa de príncipes. A promessa da quarta revolução, no livro, é exatamente essa: um tutor paciente para cada pessoa, que sabe o que já dominas e o que te falta.

Há uma medição famosa que ajuda a perceber porque é que a ideia é tão atraente (esta parte é minha, não do livro). Em 1984, o psicólogo Benjamin Bloom comparou alunos numa aula normal com alunos que tinham um tutor individual. O aluno médio com tutor ficou à frente de cerca de 98% dos alunos da aula tradicional. O problema é que não há tutores humanos para toda a gente. A máquina pode haver.

Simulação

A mesma turma, dois modelos

Doze alunos a avançar por dez temas. Cada ponto é um aluno.
0dominaram a matéria
0à espera, aborrecidos
0ficaram com lacunas

Carrega em Correr. Cada ponto é um aluno; uns aprendem mais depressa do que outros.

Modelo ilustrativo: 12 alunos com ritmos diferentes, 10 temas. Na aula para todos, a turma avança ao ritmo do professor. Com tutor, cada um avança ao seu ritmo e só passa ao tema seguinte quando domina o anterior.

É isto que o livro quer dizer com personalização. Não é dar a cada aluno um ecrã. É deixar de obrigar o aluno rápido a esperar e o aluno lento a avançar com buracos que se vão somar nos anos seguintes.

Um contraexemplo

Uma escola sem professores, aqui em Lisboa

Tenho de fazer aqui uma declaração de interesses: sou aluno da 42 Lisboa. E foi por isso que este livro me fez tanta comichão.

A 42 nasceu em Paris, em 2013, e hoje é uma rede de escolas de programação espalhadas pelo mundo. Não tem aulas. Não tem professores. Não tem propinas. Aprende-se por projetos, cada um ao seu ritmo, e quem corrige o teu trabalho são os teus colegas, que tu também corriges. Para entrar não se olha para notas nem diplomas: passa-se a Piscine, umas semanas intensas em que se aprende a aprender com quem está ao lado.

Ou seja: é exatamente o oposto da escola-fábrica que Seldon critica. Mas com uma diferença que me parece importante. O livro diz que a personalização vai chegar pela inteligência artificial. A 42 chegou lá sem ela, com pessoas.

Compara

Três formas de aprender

É a pergunta que o livro não faz: e se o tutor de que precisamos não for a máquina, mas o colega do lado? A IA é ótima a explicar. Mas quando tens de defender o teu código perante outra pessoa, que te pergunta porquê, já não chega teres uma resposta. Tens de a perceber. É aí que se aprende a sério, e é aí que a IA, usada à pressa, infantiliza.

Não acho que seja uma coisa ou outra. O futuro que me parece mais provável junta as duas: a máquina para tirar dúvidas a qualquer hora, as pessoas para discutir, corrigir e puxar umas pelas outras.

O papel humano

O que sobra para o professor

Aqui o livro é mais sensato do que muitos títulos sobre IA. Seldon não acha que os professores desapareçam. Acha que a máquina deve ficar com a parte repetitiva, como corrigir, registar, preparar fichas e preencher relatórios, para o professor ficar com a parte que só um humano faz bem: motivar, perceber quem está a passar um mau bocado, ensinar a conviver, a discutir, a ter valores.

Mexe no controlo

A semana de um professor

0%
    0 hpor semana passam para acompanhar alunos, a parte que nenhuma máquina faz

    Semana ilustrativa de 50 horas. A IA corta mais nas correções e na burocracia, um pouco na preparação e nada nas aulas.

    Guarda esta imagem, porque vamos voltar a ela quando falarmos de negócios. A pergunta certa não é que pessoas a IA substitui. É que horas da semana de cada pessoa a IA devolve, e para onde vão essas horas.

    A pergunta do subtítulo

    Libertar ou infantilizar?

    É a parte mais interessante do livro e a que envelheceu melhor. A mesma tecnologia pode tornar-nos mais capazes ou mais dependentes. Uma calculadora liberta-te das contas de dividir para pensares no problema. Um GPS usado para tudo pode fazer-te perder a noção de onde estás. A diferença raramente está na ferramenta. Está na forma como a usas.

    Testa a tua intuição. Para cada situação, decide se a IA está a libertar ou a infantilizar.

    Jogo

    Liberta ou infantiliza?

    1 de 80 certas

    O outro lado

    Os riscos que o livro aponta

    Seldon é entusiasta, mas não é ingénuo. Uma boa parte do livro é sobre o que pode correr mal. Abre cada um.

    Dados e privacidade

    Um tutor que te conhece bem é um tutor que guarda muito sobre ti: erros, hesitações, humor, ritmo. Quem fica com esses dados, e para quê, é uma pergunta que o livro trata como central. Em 2026, com o RGPD e o novo regulamento europeu da IA, já não é só uma pergunta.

    Desigualdade

    A promessa é dar a todos o que só os ricos tinham. O risco é o contrário: as escolas com dinheiro usam bem a tecnologia e as outras recebem ecrãs sem professores. A ferramenta, sozinha, não decide para que lado vai.

    Dependência

    É a palavra do subtítulo: infantilizar. Se a máquina pensa, escreve e decide por nós, deixamos de saber fazê-lo. O livro chama a atenção para a autonomia como objetivo da educação, e não só para os resultados nos exames.

    Desumanização

    Aprender é social. Aprende-se a discutir com quem discorda, a trabalhar em grupo, a lidar com um professor exigente. Um aluno sozinho com um ecrã, por muito bom que o ecrã seja, perde isso. Seldon insiste que a escola tem de continuar a ser um lugar de pessoas.

    Lido em 2026

    O que acertou e o que falhou

    Um livro de futurologia merece ser avaliado pelo futuro. Estas são as apostas que tiro do livro, e a minha leitura de como correram. Vira cada cartão.

    Vira os cartões

    A aposta de 2018 e a realidade de 2026

    As apostas são a minha síntese das ideias do livro, não citações. O veredicto é opinião minha.

    O balanço é curioso. A tecnologia chegou mais depressa e mais forte do que o livro imaginava. As instituições mudaram mais devagar. A maioria das salas de aula de 2026 é, no essencial, a de 2018, com alunos a usar IA por conta própria, muitas vezes às escondidas. As escolas que mudaram de verdade, como a 42, fizeram-no por outro caminho. A quarta revolução aconteceu fora da escola antes de acontecer dentro dela.

    Fora da escola

    E o teu negócio com isto?

    O livro é sobre escolas, mas as três ideias principais aplicam-se a qualquer equipa pequena. Uma empresa também é um sítio onde as pessoas aprendem todos os dias: o funcionário novo, a rececionista que aprende o sistema, o dono que aprende contabilidade à força.

    Personaliza a formação. Em vez do manual que ninguém lê, um assistente que responde às dúvidas de cada pessoa sobre os vossos processos, quando elas surgem. Devolve horas, não cortes pessoas. Tal como no professor, olha para a semana de cada um e pergunta que tarefas repetitivas podem sair. Não te infantilizes. Usa a IA para pensar melhor sobre o teu negócio, não para deixar de pensar nele.

    Checklist

    Quanto da quarta revolução já chegou ao teu negócio?

    Marca o que já é verdade no teu caso.

    Veredicto

    Vale a pena ler?

    Vale, com uma ressalva. A ideia central, as quatro revoluções e a pergunta libertar ou infantilizar, é das melhores formas que conheço de pensar sobre IA e aprendizagem. O resto do livro é mais desigual: é muito centrado no sistema de ensino britânico, repete-se em várias partes e, em tecnologia, ficou datado nos exemplos. Lê-se melhor como um ensaio sobre o que é educar do que como um guia sobre IA.

    A minha nota

    3,5 em 5

    A ideia central5/5
    Como envelheceu3,5/5
    Utilidade fora do Reino Unido3/5
    Ritmo de leitura2,5/5

    Lê se…

    • és professor, formador ou tens filhos em idade escolar
    • queres pensar sobre IA para lá do entusiasmo e do medo
    • formas pessoas na tua empresa

    Salta se…

    • procuras um guia prático de ferramentas
    • não tens paciência para capítulos longos e repetidos
    • esperas números sobre o mercado da IA

    Seis ideias para levar

    1. A educação mudou de raiz três vezes: família, escola, imprensa. A IA é a quarta.
    2. Cada revolução resolveu a escala da anterior e criou um problema novo. A terceira criou a escola-fábrica.
    3. A grande promessa da IA é um tutor pessoal para cada pessoa, que era privilégio de poucos.
    4. A máquina deve ficar com o repetitivo para o humano ficar com o que é humano.
    5. Se a máquina pensa por ti, infantiliza. Se te obriga a pensar melhor, liberta.
    6. A personalização não precisa de esperar pela IA: escolas como a 42 já a fazem com colegas em vez de professores.